"Santifica os que amam a beleza da Tua Casa."

Este video registra imagens da celebração da Festa da Exaltação da Santa e Vivificante Cruz do Senhor, realizada no Seminario e Academia Teológica Ortodoxo de São Petesburgo (Patriarcado de Moscou).

Toda a beleza e piedade que a Santa Igreja de Cristo oferta ao mundo, advem do seu incansável amor a Deus e aos homens.

A Deus ela oferta os seus humildes esforços, em uma constante confissão, uma constante espera, com temor e alegria.

Aos homens, ela chama, a cada um de nós, para se juntar neste esforço, para que a nossa vida seja tomada por esta beleza, por este jubilo, por este amor.

Na Igreja, como que por uma fresta, vislumbramos a realidade, um pouco sobre o mundo futuro, aquele que será totalmente transfigurado pelo Senhor, Rei de todos.

Que Deus nos permita, enquanto ainda podemos, olhar com veneração para a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, nos unirmos a ela, para que com ela possamos viver em oração, para que o Sagrado Reino ja possa viver em nós neste mundo.

"Salve, vivificante Cruz,/ troféu invencível da piedade, porta do Paraíso,/ conforto dos fiéis, fortaleza da Igreja;/ por ti foi anulada a corrupção,/ aniquilado e abolido o poder da morte;/ e por ti fomos elevados da terra para o céu./ Arma invencível, adversária dos demônios,/ glória dos Mártires, verdadeiro ornamento dos Justos e dos Santos,/ porta de salvação,// por ti veio ao mundogrande misericórdia."

domingo, 4 de novembro de 2012

Vida após a morte : Uma análise escatológica da Parábola de Lázaro e o Homem Rico. Parte 1


Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente.  Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele;  E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas.  E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado.  E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio.  E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado.
E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá.
E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.
Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos.  E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam.  Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite."
Evangelho de São Lucas : 16, 19-31



Análise interpretativa da parábola

Ao estudar este famosa parábola de Cristo pode-se observar muitas coisas. Pode-se lidar com as suas dimensões sociais ou até mesmo retirar dela inúmeras conclusões éticas e morais. No entanto, agora preferimos nos manter dentro do assunto "vida após a morte". 

Em outras palavras, aqui vamos nos preocupar com a análise escatológica da parábola.

Metas da parábola :

Primeira : O estado da alma pós morte.

 
Como vemos, a parábola não é sobre a vida após a Segunda Vinda de Cristo, mas sobre a vida da alma entre o período da morte de uma pessoa, quando sua alma deixa seu corpo, e a Segunda Vinda de Cristo.  
Esse intervalo é chamado o estado intermediário das almas. 
Outras palavras e passagens pronunciadas pelo Cristo referem-se a Sua Segunda Vinda, quando Ele virá para julgar os homens, a ressurreição corporal terá lugar, quando as almas entrarão seus corpos novamente, e uma pessoa poderá apreciar as coisas que ele fez em sua vida.

Segundo : Lembrar que a morte existe na vida do homem.

O homem rico e o pobre Lázaro morreram. A morte é a separação da alma do corpo. 
Este estado é também chamado de sono, porque a morte foi vencida pela ressurreição de Cristo. Cristo venceu a morte ontologicamente pela Sua Paixão, Sua cruz e Sua ressurreição, e Ele deu ao homem a possibilidade de transcendê-la, vivendo na Igreja. 
O fato de caracterizar a morte como um sono, um estado temporário, se compreende quando imaginamos  a maneira em que os santos morrem, pois todos eles morreram com esperança em Cristo, e isso se manifesta mesmo em seus corpos, muitas vezes incorruptos e pelos prodígios de suas relíquias.
Deus não criou a morte, mas a morte inseriu-se na natureza, como fruto do pecado do homem e seu afastamento de Deus. A morte do corpo e a morte da alma são coisas distintas. 
A morte da alma é a remoção da graça de Deus, desde a alma, já morte do corpo é a separação da alma do corpo.
Todas as pessoas conheceram o sabor do terrível mistério da morte, uma vez que todos nós herdamos a corruptibilidade e mortalidade. 
Em outras palavras, nós nascemos para morrer.A morte é o mais seguro dos eventos, o mais certo de nossas vidas. Mesmo filósofos existencialistas contemporâneos dizem que de fato é verdadeiro compreender que temos uma "existência para a morte".
Embora a morte seja  o mais certo dos eventos, o dia e a hora da morte são incertos. Ninguém sabe quando  vai morrer. O ponto então é procurar viver bem, de modo que o fruto da morte seja a vida eterna.
No texto da parábola é dito: "aconteceu que o mendigo morreu ...", e" o homem rico também morreu e foi enterrado ".
Assim, a morte é totalmente “democrática”, não faz  distinções ou exceções.

Terceira : O estado de cada alma. 

Depois de a alma de Lázaro deixar o corpo, ela foi recebida pelos anjos e levada para o seio de Abraão. Isto significa que existem anjos e, é claro, estamos falando do anjo da guarda de cada pessoa como seu protetor pessoal, que recebe as almas dos justos e as leva a Deus.
Por outro lado, a  parábola também diz que os demônios recebem as almas dos pecadores não arrependidos. O homem tolo rico ouviu uma voz de Deus: " Louco ! Esta noite te pediram a tua alma, e o que tens preparado ? Para quem será ?" (Lc 12, 20) 
O verbo "pediram" sugere que são os demônios  que reclamam a posse sobre a alma do pecador, a fim de controlá-la para sempre.
Portanto, na hora terrível da morte, quando a alma é violentamente separada da sua harmonia com o corpo, coisas terríveis acontecem.  Os anjos recebem as almas dos santos, e os demônios recebem as almas dos pecadores. 
O ensinamento dos Padres da Igreja fala das casas de pedágios, que são  tomadas pelos  demônios, os espíritos aéreos que desejam governar as almas de todas as pessoas para sempre. É claro que as almas dos santos, que estão unidos a Cristo e tem o selo do Espírito Santo não podem ser controladas pelos demônios.
Quando os Padres da Igreja falam desse pedágios,  eles narram a ação de ódio e fúria agressiva dos demônios, mas esta é sempre conciliada com  a existência das paixões do homem, que buscam a satisfação que não pode mais ser satisfeita porque da não-existência do corpo. É justamente esta condição que sufoca a alma, que sente uma angústia terrível.
 Esse tormento da alma é como o confinamento solitário  de uma pessoa na prisão sem qualquer possibilidade de dormir, comer, encontrar e falar com alguém, e assim por diante.
 Em seguida, suas paixões e todo o seu ser vão estar realmente enfurecidos.
O fato que determina o porque  das almas dos homens serem recebidos por anjos ou por demônios é relativo ao seu estado. Como dizem os Padres, os anjos são espíritos e almas noéticas em comparação com o corpo material, mas em comparação com Deus, eles têm algo material. Então, os anjos são chamados de seres etéreos, eles não são totalmente imateriais. Além disso, a alma é uma criatura, o que significa que ela é criada por Deus. É imortal por graça, sendo a imortalidade  um dom de Deus ofertado para ela. Cada criatura tem um começo e um fim. Uma vez que a alma é criada, ela tem um começo, mas não tem fim, porque Deus quis assim.

Quarta : A continuidade da consciência.


 Enquanto a alma de Lázaro foi para o seio de Abraão  e a alma do homem rico foi para o inferno (na verdade, temos a palavra Hades, no original ), Cristo diz que o Homem rico "viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio".
Isto é muito significativo, porque determina que apesar da separação da alma do corpo, a hipóstase ou substância ou pessoa, não está perdida. Na verdade, a alma não existia antes do corpo, mas sim foi criada ao mesmo tempo que o corpo, de modo que nem a alma nem o corpo sozinhos (em separado) constituem o homem. 
No entanto, apesar da separação temporária da alma do corpo, o homem não está perdido. Isto é visto a partir do fato de que a alma mantém a consciência e, como os Padres explicam, a alma de um homem reconhece os elementos do seu próprio corpo, que permanecem na terra e são, provavelmente, dispersos ou divididos em elementos dos quais eram compostos. 
Na Segunda Vinda, pela graça de Deus a alma vai se reunir aos elementos de seu corpo, todo o homem será formado, e claro, em seguida, os corpos de ambos os justos e os injustos vão ser plenamente espirituais, ou seja, eles não vão precisar de comida, nem serão limitados por distâncias e outras restrições. A Ressurreição é um dom concedido a todas as pessoas, os justos e os injustos.
É um dado marcante que nesta parábola,  Cristo menciona o nome do homem pobre, mas não diz o nome do homem rico. Isso significa que Lázaro, porque viveu com Deus,  foi soteriologicamente uma pessoa, uma verdadeira hipóstase, enquanto o homem rico, embora  fosse também  um homem, não tinha a hipóstase soteriológica.  Isto significa que um homem de verdade é aquele que tem uma alma e um corpo, mas também a graça de Deus em sua alma e corpo. Então, ainda que um homem que não tenha o Espírito Santo seja ontologicamente uma pessoa, ele não é uma pessoa em relação a Deus, e isso se dá por razão muito simples :  ele se tornou escravizado às coisas. Em vez de se voltar para Deus, seu Nous busca a matéria e é escravizado por ela.


Quinta : O seio de Abraão

 A parábola diz que o homem rico, que estava  no hades, viu "Abraão, e Lázaro no seu seio".
 A pessoa de Abraão é entendida aqui no sentido de Deus. Estar no seio de Deus significa então estar em comunhão com Deus.
No seio, temos o coração do homem. O coração, que é a fonte da vida biológica, é um símbolo do amor. O amor maior, maior que o conhecimento.  Na verdade, o conhecimento verdadeiro se constitui no amor , proposto pela comunhão. Assim, quando se diz que uma pessoa  mora no coração de outra, isso significa que tal pessoa está conectada a pessoa amada, que há unidade entre eles.
Assim, a expressão  "Lázaro está no seio de Abraão" caracteriza  comunhão de Lázaro com Deus, instituída pelo conhecimento espiritual , pelo amor.
Quando falamos de conhecimento de Deus, queremos dizer " estar em comunhão".
 Não é o conhecimento cerebral, mas o conhecimento que está conectado com o amor, com a vida.
Lázaro não parece vislumbrar as dificuldades terríveis do homem rico. Lázaro não vê o Hades, ainda que o homem rico possa ver a glória do Paraíso.
Na verdade, uma pessoa que vive na Luz incriada, na grande visão de Deus, como dizem nossos Pais, esquece o mundo. A luz é tão grande, tão deslumbrante que nem sequer permite que se veja qualquer outra coisa. Mas isso não significa que os santos não roguem pelo mundo todo. Eles oram e rogam a Deus, pois eles realmente têm uma maior comunhão com Ele. No entanto, eles estão em um estado que não podemos compreender.  Somente se olharmos para as experiências divina dos santos podemos as compreender em parte.



Primeira parte da leitura catequética de Sua Eminencia o Bispo Hierotheos (Vlachos), Metropolita de Nafpkatos.

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