segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Piedade Ortodoxa : Sobre a tradição dos cabelos e das barbas longas.
A questão sobre o uso de cabelos longos e barbas por parte do clero é freqüentemente trazida a baila por fieis e interessados sobre a tradicional posição ortodoxa.
Se buscarmos pesquisar as fotografias e retratos do clero na Grécia, Rússia, Romênia e outros países ortodoxos quando no início do século XX, será fácil perceber que quase sem exceção, tanto os clérigos monásticos quanto o clero de sacerdotes casados, Presbíteros e Diáconos(obviamente Bispos), usavam barba não aparada e cabelo longo.
Foi então somente após a Primeira Guerra Mundial que passa a ser possível ver uma postura nova, com membros do clero usando cabelo curto e mesmo em certos casos, sem barba.
E tal maneira "modernizada" se encontra presente na prática de alguns membros do clero em nossos dias.
Há duas razões normalmente apresentadas como sendo uma explicação para a presença desta mudança.
A primeira delas diz que "o clero deve acompanhar os avanços do tempo e não ficar preso a uma moda própria de camponeses".
Uma segunda argumentação, ainda mais absurda é a seguinte : "Minha esposa não vai permitir que eu deixe cabelo e barba ao natural!".
Tal raciocínio é como uma linha "dogmática" para os modernistas que tanto anseiam que o clero adote todas as modas contemporâneas (e deste modo, se barba está na moda, se mantenha as barbas, se estão "defasadas", que se faça as barbas...).
Parte desse pensamento também nasce de uma mentalidade tomada pelo dito "ecumenismo", que procura por meios variados, não "ofender os valores" dos indivíduos que se encontram fora da Igreja Ortodoxa.
Há ainda aqueles que buscam uma razão (para se cortar o cabelo e aparar ou mesmo raspar a barba) nas Sagradas Escrituras. Este então buscam na afirmação de São Paulo : " Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido? "(1 Coríntios 11:14.)
Vamos então a buscar respostas a estas "justificativas".
A respeito das primeiras proposições (sobre o seguir a moda, atender as supostas demandas da esposa e sobre o convívio de nossas tradições com os hábitos dos não ortodoxos), é certo que a tradição ortodoxa condena de forma clara o nexo modernista e ecumenista. Daí que estas demandas não encontram qualquer base de sustentação no mais básico ethos ortodoxo.
Já a questão que oferta uma indicação das Sagradas Escrituras apresenta um maior grau de respeitabilidade, e mesmo por isso merece uma refutação mais pormenorizada.
A piedade cristã ortodoxa reconhece fundamentos já na Sagrada Tradição advinda do Antigo Testamento, pois nosso relacionamento com o Senhor Deus, a santidade, adoração e moralidade própria de nossa fé foi se constituindo desde as mais remotas épocas, registradas na Bíblia Sagrada. formada nos tempos antigos da Bíblia.
Nos tempos da fundação do Sacerdócio, O Senhor instou os mandamentos a serem seguidos pelos sacerdotes, e dentre as muitas considerações, é dito : "Não farão calva na sua cabeça, e não raparão as extremidades da sua barba" (Levítico 21:5.)
Ainda sobre este tema, só que desta vez como uma indicação para todos os homens e não apenas aos Sacerdotes :Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem danificareis as extremidades da tua barba. (Levítico 19:27)
O significado desses mandamentos é sobretudo voltado para incutir ao clero a necessidade de se dedicarem completamente ao serviço do Senhor.
Os leigos também são chamados para uma missão parecida, ainda que sem as funções sacerdotais.
Esta questão da aparência também aparece com denotada importância na narrativa dos mandamentos aos Nazarenos :"Todos os dias do voto do seu nazireado sobre a sua cabeça não passará navalha; até que se cumpram os dias, que se separou ao Senhor, santo será, deixando crescer livremente o cabelo da sua cabeça." (Números 6:5 ).
O significado do voto Nazareno era um sinal de que o poder de Deus repousava sobre a pessoa que o assumia. Deste modo, cortar o cabelo significava o desejo de "cortar" (romper) com o poder de Deus, como temos igualmente no exemplo de Sansão (busquem a leitura de Juízes 16:17-19).
A força dessas observâncias piedosas foram transmitidas à Igreja do Novo Testamento, sendo então preservadas, mesmo até os nossos dias atuais, em que pese a obstinação na apostasia tão própria da nossa época.
Por que, alguém poderia questionar com certa justiça, alguns clérigos ortodoxos podem livremente rejeitar as orientações piedosas acima registradas a respeito das barbas e do cabelo, e estes mesmo não cogitam eliminar o uso das coberturas (skufias, klobuks e mitras), que são usadas pelo clero, justamente com base nas antigas orientações advindas do Antigo Testamento e da tradição consolidada pela Igreja primitiva (buscar conhecer as explanações de Epifânio de Chipre sobre a mitras usadas pelos apóstolos João e Tiago)?
O próprio apóstolo Paulo usava o cabelo comprido, como podemos concluir a partir da seguinte passagem :" De sorte que até os lenços e aventais se levavam do seu corpo aos enfermos, e as enfermidades fugiam deles, e os espíritos malignos saíam."(Atos 19:12)
Os lenços em questão, indicavam justamente a manutenção de um cabelo comprido (pois este era o uso piedoso dos lenços), sendo que estes lenços eram amarrados, de modo a manter o cabelo coberto.
Mas se esta prática piedosa entre o clero e os leigos das primeiras comunidades cristãs era uma continuidade do que era observado ainda pelo guiamento do Antigo Testamento, como então devemos entender as palavras de São Paulo aos Coríntios citadas anteriormente (I Coríntios. 11:14), e que servem de argumento para os adeptos dos cortes de cabelo e barba?
Isso pode ser explicado.
São Paulo, na passagem citada, está se dirigindo a homens e mulheres que estão orando ( I Coríntios. 11:3-4). Suas palavras na passagens supracitada , bem como ocorre em outras passagens sobre coberturas para a cabeça ( I Cor 11:. 4-7), são direcionadas para os leigos, e não para o clero.
Há outras passagens em que São Paulo faz uma distinção óbvia entre os clérigos e leigos ( como em I Cor. 04:01, I Tim. 4:06, Colossenses 1:7, e outras).
De modo que é evidente que ele não se opôs a ordenança instituída no Antigo Testamento em relação aos cabelos e barbas, pois, como já observamos acima, ele mesmo citou que os Sacerdotes em todo o tempo, representavam Nosso Senhor, que como sabemos, manteve o cabelo e barba compridas, como o Grande Sumo Sacerdote do Sacerdócio cristão.
Temos então que na referida passagem, São Paulo usa uma palavra grega para "cabelo".
Esta palavra especial para o cabelo designa o cabelo visto como um ornamento (sendo a questão do comprimento apenas secundária), diferindo então do termo anatômico ou diretamente vinculado ao cabelo.
Temos que São Paulo impõe suas de palavras no sentido de enfatizar suas críticas aos leigos que faziam dos seus cabelos um apetrecho estético, buscando seguir uma forma estilizada , uma moda, o que nenhuma relação possuía ao nexo da verdadeira devoção, advinda do Antigo Testamento e própria dos cristãos, que acentuava a modéstia, no zelo pela manutenção dos cabelos e barba.
Notamos a mesma abordagem a respeito do cabelo presente no cânone 96 do Sexto Concílio Ecumênico, onde se afirma: "Aqueles, portanto, que enfeitam e moldam o cabelo, em formas de entrelaçamentos e modos engenhosamente concebidos, visam buscar a atenção alheia, provocando esses como dotados de uma isca, a fim de fazer sucumbir as almas instáveis."
Em uma outra fonte, o Dicionario Biblico Eerdmans, lemos uma interessante nota sobre a prática do Antigo Testamento, preservada na Igreja:
"Até certo ponto, o estilo de cortes de cabelo era uma questão de moda, pelo menos entre as classes superiores, que eram particularmente mais influenciadas e abertas a influencia estrangeira (pagã) . No entanto, o cabelo longo parece ter sido regra preservada entre os Hebreus , tanto homens como mulheres."
Assim, observamos que o corte dos cabelos ou suas estilizações era uma moda entre os pagãos e portanto não era aceitável, especialmente entre o clero cristão na maior parte de sua história, até que os nossos contemporâneos decidiram romper com esta Sagrada Tradição.
É interessante notar que a moda de cortar cabelo e raspar a barba encontrou aceitação generalizada no Catolicismo Romano e no restante do mundo protestante. É tão significativamente importante e sintomática a maneira como este costume pagão foi adotado universalmente pelo clero romano, que já no Século XI, uma das razões listadas pelo Cardeal Humberto para justificar o Anátema latino ao Patriarca Miguel de Constantinopla em 1054, estava a questão aqui considerara :
"Enquanto barbas e cabelos longos fizerem parte dos seus costumes([Ortodoxa), tal ato é um manifesto de rejeição ao vínculo de fraternidade com o clero romano, uma vez que este corta o cabelo e faz a barba."
Igumeno Lucas
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Notas do Editor do Cetro Real :
De fato , obviamente que não há justificativas teológicas para que o clero ortodoxo ignore a tradição de nossos pais, tão facilmente evidenciada na simples observação de nossos ícones, ou mesmo quando olhamos para os mais veneráveis exemplos de santidade, ainda permanentes na vida orgânica da Igreja.
Contudo, existe uma justificativa, que não foi indicada pelo Igumeno Lucas no artigo que postamos acima : A questão das necessidades civis dos sacerdotes que não são "apenas" Sacerdotes, mas que por razões de necessidade, consorciam o sacerdócio com uma outra atividade civil, profissional.
Tal é a realidade de muitos, talvez mesmo da maioria dos clérigos ortodoxos que servem a Igreja em países não ortodoxos.
Poucas são as paróquias que podem manter, com base nas contribuições dos fiéis (o dizimo também faz parte das Sagradas Tradições, não é verdade?), o pagamento de um salário a um sacerdote.
E é importante lembrar que nossos sacerdotes paroquiais são casados, possuem esposa e filhos...
Desse modo, justamente seguindo uma determinação contida nas Epístolas Paulinas, o Sacerdote ortodoxo em países nos quais o povo ortodoxo não dá conta de manter a Igreja, precisa buscar meios paralelos ao sacerdócio, para conseguir sobreviver e sustentar sua família : "Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós." (2 Tessalonicenses 3:8).
Assim, o corte do cabelo e o aparo da barba(e em alguns casos, mesmo sua raspagem), são infelizmente partes das implicações inevitáveis para muitos dos serviços aos quais esses sacerdotes se associam, não para ficarem ricos, mas sim para poder sobreviver, e assim, poder servir a Igreja como sacerdotes.
Da mesma maneira que a tradição nos indica que os Sacerdotes devem manter suas barbas e cabelos íntegros, o mesmo se dá a respeito do uso restrito do hábito talar, mesmo fora do templo, para os sacerdotes.
Também este piedoso e benemérito costume, não vai poder infelizmente ser seguido a risca, se os nossos padres tem de viver como tralhadores comuns.
Se trabalham e ganham o seu sustento como trabalhadores civis, como vão poder trabalhar usando batina ?
Logo, estamos totalmente de acordo com o registrado no artigo : Se as justificativas são as repreensíveis buscas de viver as modas do mundo, de se assemelhar aos heterodoxos ou com base em uma torta interpretação (livre exame protestante) das Escrituras Sagradas, devemos ver o corte de cabelo e de barba (assim como o descaso com o hábito talar permanente) como um triste descaso e mau testemunho de indivíduos que deveriam se esmerar em ser, em tudo, modelo para os féis.
Contudo, se a razão para se ignorar estas santas tradições está na mais incisiva necessidade por sobrevivência, nós devemos não apenas compreender, mas sim honrar esses sacerdotes, que com tanto esforço conseguem servir a Igreja, em que pese a incapacidade dos fieis de sustentarem seus pastores, como seria o certo.
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3 comentários:
Excelente post! :D
Excelente texto e grande utilidade no dia-a-dia pastoral de um sacerdote!
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